Tem uma mudança fundamental no conceito de empresa acontecendo neste exato momento.

Bem ao alcance dos nossos olhos.

Vamos começar do começo: afinal, o que é uma empresa?

Na primeira definição que o Google me oferece, uma empresa “é uma obra ou desígnio levada a efeito por uma ou mais pessoas; trabalho, tarefa para a realização de um objetivo; empreendimento”.

Segundo o dicionário Aurélio é “uma sociedade ou companhia que explora qualquer ramo de indústria ou comércio”.

Para a jurista Mônica Gusmão, “a empresa é a atividade desenvolvida pelo empresário”.

Na idade média já significou a insígnia que um cavaleiro mandava gravar em seu escudo para identificar a causa pela qual estava lutando, ou seja, o que ele estava empreendendo.

Costumo dizer que a empresa é a melhor expressão contemporânea da necessidade, inerente ao ser humano, de se organizar em tribos. Somos seres tribais e, nos dias atuais, a empresa é a principal tribo para a maioria de nós.

Em 1937, o economista britânico Ronald Coase, publicou um artigo clássico, chamado The Nature of the Firm (A Natureza da Firma). O artigo introduz a ideia que corporações permitem a redução dos custos de transação ao organizar e centralizar a produção de bens e serviços. Nesse contexto, uma firma significa uma empresa em atividade. A escala obtida por meio da centralização das atividades e a coordenação de pessoas e recursos permite atingir níveis de produtividade impossíveis aos agentes econômicos individualmente. A lógica descrita por Coase é a pedra fundamental da Teoria da Firma e ajuda a explicar a lógica de negócios vigente ao longo do século XX. Uma lógica baseada na uniformidade e previsibilidade de processos escaláveis. Durante muito tempo, para produzir qualquer coisa em grande escala era preciso investir em fábricas, logística, escritórios e mão-de-obra contratada. Era preciso também ter acesso ao financiamento oferecido por grandes instituições financeiras.

Se você quer saber mais sobre os princípios da organização do trabalho na sociedade industrial, leia aqui meu artigo da semana passada.

Acontece que o avanço dos negócios habilitados pelas tecnologias da informação e comunicação (TICs) subvertem essa lógica. Cada vez mais é possível conceber negócios sem uso intensivo de capital, utilizando plataformas e equipes sob demanda, tecnologias de baixo custo contratadas em modelo de assinatura. Cada vez mais os pequenos passam a ter acesso às mesmas soluções que até bem pouco tempo atrás eram restritas aos grandes. Foi assim na ascensão das organizações exponenciais, está sendo assim na latente revolução blockchain. Um profissional com um computador e uma boa conexão com a internet tem acesso a ferramentas gratuitas ou muito baratas que colocam seu trabalho em um patamar compatível ao de uma empresa tradicional e de grande porte.

É por isso que vemos e veremos cada vez mais empresas estabelecidas sendo desbancadas por iniciantes. Esse movimento tende a ser ampliado e acelerado.

Negócios de base tecnológica podem ter custos marginais próximos a zero. Ou seja, em uma fábrica tradicional a cada nova unidade produzida há um acrescimento proporcional nos custos variáveis e, dependendo do volume, nos custos fixos. Quando falamos em produtos digitais, esse custo marginal tende a se aproximar de zero.

Exemplificando a diferença: uma fábrica de colheres que produz cem colheres por mês tem uma estrutura muito diferente de outra que produz dez milhões de colheres no mesmo período. Já uma empresa como o Waze, após desenvolver sua tecnologia e modelo de negócios, é muito menos impactada quando escala sua base de usuários. A estrutura do Waze foi bem menos impactada quando passou dos primeiros mil para os primeiros cem milhões de clientes.

Na medida em que a redução dos custos de transação vem deixando de ser uma vantagem competitiva e a razão da existência da firma, cabe o questionamento: qual será a natureza da firma na era pós-digital?

Não há respostas estabelecidas, mas arrisco dizer que uma empresa na era pós-digital tem como função ser uma maximizadora de propósitos individuais e comuns, que vão além da lucratividade e da cartilha do capitalismo financeiro e das grandes corporações. Envolvem, acima de tudo, o impacto positivo que o empreendedor ou grupo de empreendedores deseja ver concretizado na sociedade. Envolve mercados compostos por menos intermediários. O surgimento, cada vez mais frequente, de negócios que chamam pra si funções atualmente exclusivas dos governos e do terceiro setor é um cenário possível. Aliás, nesse cenário, essa divisão por “setores” se torna mais fluida, líquida.

Estamos falando de empresas, cujo impacto positivo está no centro da estratégia e que enxergam seu lucro como combustível para maximizar esse impacto.

O capitalismo consciente, as empresas B e os negócios sociais podem ser vistos como evidências presentes dessas possibilidades. São fatos portadores de futuro. Há quem diga que não passam de manifestação de um capitalismo tardio e que não responderão às demandas futuras da sociedade. Porém, até o momento, o sistema capitalista é o que melhor respondeu aos nossos anseios de mobilidade e evolução dos arranjos sociais. O x da questão é como corrigiremos suas disfunções ao mesmo tempo em que construiremos um novo paradigma, que reflita a evolução de consciência da sociedade no século XXI.

Um palpite: descentralização. 

Não podemos esquecer: essa evolução nos negócios, sobretudo quando blockchain passa a ser uma variável da equação, tem o potencial de levar o fenômeno descrito a patamares ainda não experimentados por nós, os seres humanos. Contudo, convém lembrar, para que ela se concretize em suas potencialidades precisa vir acompanhada da já citada evolução de consciência e da inclusão de (muito) mais gente na conversa.

A evolução sempre começa pela ascensão de uma nova forma de pensar e de novos valores.

Buckminster Fuller já dizia:

Você nunca muda as coisas lutando contra uma realidade existente. Para mudar algo, construa um novo modelo que torne obsoleto o modelo existente.

A tecnologia, portanto, pode habilitar a descentralização do capitalismo. Pode ser meio para que, mais do que nunca, propósitos individuais possam gerar valor para outras pessoas.

Que sociedade estamos construindo?

 

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